Secretário Geral Ibero-Americano analisa América Latina na crise e pós-crise

por Gabriela Stocco

ConferênciasNo dia 21 de agosto a FEA recebeu o Secretário Geral Ibero-Americano Enrique Iglesias para a conferência "Ibero-América no novo contexto político mundial". Iglesias representa a Secretaria Geral Ibero-Americana (Segib), que promove anualmente a Cúpula Ibero-Americana de Chefes de Estado e de Governo, cuja próxima edição ocorrerá em outubro na Cidade do Panamá.

No evento, Pedro Dallari, coordenador do Centro Ibero-Americano da USP (Ciba), sublinhou que "a USP há três anos vem fazendo atividades de contribuição em torno da temática da Cúpula Ibero-Americana", por meio de atividades preparatórias como esta. O Pró-Reitor de Pesquisa, Marco Antônio Zago, comentou que a agenda da Cúpula da Segib é "absolutamente apropriada" para o Ciba e para a USP, já que é vista como a universidade "mais destacada de toda a Ibero-América".

Iglesias tratou da força da identidade cultural latino-americana e de como a crise financeira mundial ainda atinge a região. Ele confirmou também o caráter, inicialmente financeiro da crise.

O Secretário Geral avaliou que, inicialmente, a América Latina conseguiu absorver facilmente os impactos da crise, graças a políticas macroeconômicas bastante sensatas e produção de matérias-primas. Além disso, países como o Brasil conseguiram acumular enormes quantidades de reserva. "Isso deu uma solidez importante e é uma riqueza do país". No entanto, a permanência da crise começa a impactar a região, que vê as commodities se desvalorizando: "Esse ano vamos ter uma queda de 2 a 3% nas economias (da Ibero-América), porque as matérias-primas começam a cair. O ferro caiu 35%; o cobre, 40%; e a soja 15 ou 20%". Todos esses materiais são produzidos e exportados por países latino-americanos.

O Secretário Geral também se disse preocupado com iniciativas como o Tratado do Atlântico Norte e o Tratado do Pacífico, que incluem alguns países latino-americanos, como México e Chile. Ele considera que esses acordos tendem a criar redes e fragmentar o mundo e, consequentemente, fragmentar a América. Ele afirmou: "Ninguém está criticando acordos multilaterais, eles não são necessariamente protecionistas, mas podem ser. Isso para a América tende a ser um grande risco".

Pós-crise

Se por um lado hoje sabemos que o mundo entrou na crise de 2008 graças a um modelo financeiro criativo, mas que alimentou muito a capacidade de especulação do mercado, por outro lado a saída da crise ainda é incerta. Iglesias confirma que ainda não se sabe quando e como o fim da crise será definido. Há apenas uma certeza: "O ponto de chegada da pós-crise não será o ponto de partida". Isso significa que a economia mundial está se transformando e deverá ser baseada em crescimento por meio da tecnologia, inovação e da presença dos países emergentes - predominantes na América Latina.

No contexto interno dos países da Ibero-América, a marca da economia serão as classes médias, "particularmente aquelas que chegaram ultimamente", afirma Iglesias. Ele ainda destacou o papel político que elas têm demonstrado nas manifestações nas ruas de países como Brasil e Argentina, e as considerou como sendo de "difícil administração política" por temerem retroceder em seu espaço político e econômico.

Já no plano dos tradicionais atores da economia mundial, Iglesias destaca que essa é a primeira vez que Estados Unidos e Europa propõem saídas diferentes para a crise. Os Estados Unidos permanecem injetando muitos recursos, fechando bancos e estimulado a economia "sobre a base de um motor permanente de criação de recursos por parte do Federal Reserve (órgão do Banco Central americano)". Ele atenta, porém, que esse modelo cria um endividamento que um dia deve ser pago. Já a União Europeia, liderada pela Alemanha, tem implantado medidas de ajuste imediato, que criam esperanças para o futuro, mas que exigem muitos sacrifícios no momento.

Além de Europa e Estados Unidos, também devemos nos atentar à China, definida por Iglesias como "um grande mobilizador, destino das exportações da maioria dos países", principalmente economias baseadas em matérias-primas, como a América Latina. No entanto, nem "o gigante" escapou da crise, como explica Iglesias: "A queda da taxa de crescimento nos últimos meses está mostrando que, necessariamente, a China deve fazer um ajuste interno".

Por fim, Iglesias afirmou que a saída da crise, que começou há cinco anos, deve ser demorada, já que considera que, sob alguns aspectos, a crise atual é maior que a de 1929: "As pessoas esquecem que a solução da crise de 1929 se deu perto de 1950. A saída dessas crises leva muito tempo e por isso os riscos que se corre não são pequenos".

Publicado em: 04/09/2013

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